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Quatro anos de Leão Etíope do Méier e outros eventos fora da Zona Sul carioca que você precisa conhecer

Quem escreveu

Luiza Vilela

Data

12 de January, 2018

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O evento – ou facção cultural, como preferem os organizadores – Leão Etíope do Méier, que ocupa periodicamente a praça Agripino Grieco, no coração desse bairro de tanta história da Zona Norte carioca, está comemorando quatro anos com duas festas imperdíveis e muita história para contar.

Aproveitei para conversar um pouco com Pedro Rajão, um dos fundadores do Leão (cujo nome remete ao Leão de Judá da antiga bandeira da Etiópia, que é o único país africano que não foi colonizado), sobre o evento, as edições especiais deste início de ano e os desafios de criar um “novo fluxo migratório cultural” no Rio, que promova a integração entre indivíduo e território, cidadão e cidade.

Aliás, tudo começou da história do próprio Pedro com o Méier, onde foi criado:

“Nasci e cresci entre Maria da Graça x Cachambi x Lins (bairros do grande Méier), e sempre passava pela praça Agripino Greco e via um bocejante dia a dia de um espaço que, mais tarde, já trabalhando como DJ e produtor cultural, entendi como um potente ponto de cultura e política.”

Corta para janeiro de 2014, quando ele começou a convidar bandas, DJs, artistas circenses, educadores, produtores e entusiastas do projeto para somar e pensar junto. A coisa tomou corpo e, de lá pra cá, já foram mais de 100 edições, muitas parcerias e até alguns prêmios, como o Certificado Heloneida Stuart, recebido da Comissão de Cultura da ALERJ em 2016.

A praça lotada. Foto de Marina Andrade

O foco principal do Leão é a música – bandas autorais, independentes, festivais de jazz, de rock, rodas de samba, rap, música colombiana, haitiana… mas também há muito espaço para o teatro, o circo, o cinema, palestras. O evento tem inclusive um cineclube próprio, o Cinetíope, que já exibiu dezenas de filmes e documentários, além de hospedar festivais e mostras de cinema independente, como a Semana dos Realizadores e o Cineclube Atlantico Negro.

Sobre as edições que mais marcaram o evento, Pedro conta o seguinte:

“É difícil lembrar, mas podemos dizer que os bailes da Bangarang SoundSystem, as rodas do Samba de Benfica com o professor Luiz Antonio Simas, o Arraiá Etíope com Geraldo Junior, os ensaios abertos da Orquestra Voadora [que volta agora para as comemorações], uma participação de Carlos Malta e Fernando Grilo no show do Samba Nonsense, os festivais de rock, de jazz, o Dia Nacional do Forró, a edição Leoa Etíope do Méier, o aulão de história política com o prof. Wolney Malafaia, as aulas pública de Carlos Moore, Nei Lopes, Marielle Franco, o Bailão do Castelo, o evento ‘Jovem Negro Vivo’ com a Anistia Internacional, são memoráveis dentre as mais de 100 ocupações que realizamos.”

É realmente uma história incrível para um coletivo tão jovem. A força do Leão vem atualmente de um grupo de cinco realizadores: Deborah Fontenelle, Bê Lima, P.H., Karoline Ruthes e o próprio Pedro. São eles que pensam e executam, em parceria com uma rede de apoio que reúne amigos e outros grupos, coletivos e iniciativas similares. O evento se banca principalmente com o lucro do bar, além de alguns produtos como camisa, copo e cerveja artesanal. O Leão também já foi contemplado duas vezes por editais da Prefeitura, o que não significa que não haja críticas a serem feitas:

“A cidade está sendo cada vez mais asfixiada pela escassez de políticas públicas de cultura, a secretária atual da pasta dialoga mal com o setor e se vê de mãos atadas ao ter que lidar com uma prefeitura completamente mecanizada pela Igreja Universal, pautando suas políticas a partir de um viés religioso e moralista que reduz e amordaça a maior riqueza do Rio: a diversidade e incontrolável força da rua.”

Está aí uma verdade incontestável. Aliás, um dos eventos que a gente mais queria colocar na lista ao final desta matéria, a Casa do Jongo, onde acontece o Jongo da Serrinha, acabou de anunciar que vai fechar as portas por falta de incentivo da Prefeitura. A verdade é que estamos todos apreensivos por este primeiro carnaval da gestão Crivella, mas seguimos resistindo.

E o Leão resiste com dois eventos que prometem, além de muitos planos legais para 2018. A primeira etapa da comemoração será no próximo domingo, dia 14 de janeiro, e fica por conta da Orquestra Voadora, com abertura do DJ Lencinho e shows do MC André Machado Ptah, do rapper Jeza de Pedra e do DJ Fábio ACM. Para essa edição especial, o evento troca a praça Agripino pelo centenário Jardim do Méier. Já no dia 3 de março, de volta na praça, o Leão convida Tambores de Olokun e Zé bigode. Nos eventos do face tem uma lista detalhada de como chegar de transporte público, de vários pontos da cidade.

Encerramos nosso papo com o Rajão falando sobre os desafios para 2018, e os da produção cultural são bem universais:

“Queremos principalmente dar sequência ao projeto Universidade em Desencanto, uma série de aulas públicas que já trouxe nomes importantes para debater sobretudo o racismo e a negritude em praça pública. Como estamos em ano de eleições e vivendo um momento completamente surrealista da nossa política, nossa agenda tanto da U.D. quanto das sessões do Cinetíope trarão temas atuais para debater os rumos da Educação e tentar deter a desinformação, o fascismo pornô bolsonariano e a eterna ladainha neoliberal meritocrata. Precisamos de mais trabalho de base e menos ativismo virtual. Precisamos de encontros e debates, não de confrontos e embates.”

Onde assina embaixo?

Arte de Pablo Meijueiro

No mais, fiz uma lista de outros eventos e lugares que estão ajudando a descentralizar a cultura no Rio:

Baile Charme do Dutão de Madureira

Ele mesmo – o mais famoso, o que já passou até na novela, o que existe desde os anos 90, o que me ensinou a pedir cerveja no baldinho. Rola (quase) todo o sábado e você pode acompanhar a programação por aqui.

Samba do trabalhador

A roda do Samba do Trabalhador, comandada por Moacyr Luz, segue firme há 12 anos na Zona Norte do Rio de Janeiro, mais precisamente no Andaraí, no Clube Renascença. Fique de olho na agenda aqui.

Imperator (Centro Cultural João Nogueira)

Foto de Bruno Pavão

Com uma história que remete aos anos 60, o Imperator foi reaberto em 2012 com grande pompa, como o maior centro cultural da zona norte carioca, e desde então vem realmente se formando como tal. O próprio Leão Etíope já fez eventos por lá, assim como inciativas marcadamente mais zona sul, como a plataforma Queremos!, que vez ou outra também ocupa o espaço. Além de casa de show, o Imperator ainda tem um cinema e espaço para exposições. Acompanhem a programação aqui.

Sarau do Escritório

Nenhum sarau carioca cresceu e floresceu com a velocidade do Sarau do Escritório, que a cada edição homenageia figuras ou folclores conhecidos do Rio de Janeiro. Sempre às quintas-feiras, na praça Luana Muniz, na Lapa. Para saber quando vai ser o próximo e quem sabe tomar coragem de aproveitar o microfone aberto, sigam a página do evento.

Mate com Angu Cineclube

Na ativa há 15 anos, e com o epíteto maravilhoso de “O cerol fininho da baixada”, o Mate com Angu é um dos coletivos culturais mais bacanas do Rio. Já virou livro, já virou festival de cinema (Festival Mate com Angu de cinema popular) e segue se reinventando e provando que o Rio realmente é muito mais que a zona Sul. Entre no grupo do facebook pra ficar por dentro de todos os eventos e navegue pelo site, que é cheio de histórias incríveis.

Quem escreveu

Luiza Vilela

Data

12 de January, 2018

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Luiza Vilela

Luiza S. Vilela é paulistana naturalizada capixaba, mas foi parar no Rio pra cursar letras há 12 anos e nunca mais saiu. Fugiu da vida acadêmica pra escrever, produzir conteúdo e, mais recentemente, casar pessoas. Já coordenou a editoria de FVM e Culinária da Revista Capitolina e contribuiu com Matador, Noo, Rio Etc, Modices e tantas outras. Bate um papo reto sobre literatura, claro, mas também sobre moda, culinária, feminismo e esportes. Site: www.luizaescreve.com

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Comentários

  • Olá, bem bacana essa iniciativa de falar sobre eventos que ocorrem fora da órbita da zona sul, visto que ela representa apenas um mero quinhão dessa imensidão caótica que é o Rio de Janeiro; na qualidade de morador de Campo Grande, no extremo-oeste da cidade, confesso ter sentido falta de alguma menção aos eventos que aqui ocorrem, visto que cá por essas bandas há uma movimentação cultural muito interessante ocorrendo de uns tempos pra cá, com agitações culturais em Campo Grande, Bangu, Realengo, Sepetiba e adjacências, tanto na rua como nas próprias casas de pessoas que as têm transformado em espaço de convergência das mais variadas vertentes artísticas, tais como música, teatro, dança, fotografia, artes plásticas, poesia etc ad eternum; eu mesmo, junto a outro amigos, produzo dois eventos em Campo Grande, sendo que um deles já está indo para a sua 12a edição, a Lavanderia Lírica. Se quiser saber mais a respeito da cena e seus agentes, pode entrar em contato que será um grande barato poder papear sobre (: Saudações!
    - Iuri Freire

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