Decoding

Tendências dos principais festivais de inovação e criatividade do mundo.

Festivais de música

Os melhores festivais de música do Brasil e do mundo num só lugar.

Fit Happens

Aventura, esporte, alimentação e saúde para quem quer explorar o mundo.

Podcast Jogo do CoP

O podcast Jogo do CoP discute quinzenalmente assuntos aleatórios.

Quinoa or Tofu

Restaurantes, compras, receitas, lugares, curiosidades e cursos. Tudo vegano ou vegetariano.

Rio24hrs

Feito com ❤ no Rio, para o Rio, só com o que há de melhor rolando na cidade.

SP24hrs

Gastronomia, cultura, arte, música, diversão, compras e inspiração na Selva de Pedra. Porque para amar São Paulo, não é preciso firulas. Só é preciso vivê-la.

SXSW

Cobertura pré e pós do SXSW 2020 com as melhores dicas: quais são as palestras, ativações, shows e festas imperdíveis no festival.

Valle Nevado

Chicken or Pasta na temporada 2019 do Valle Nevado.

Etiópia: motivos para conhecê-la

Quem escreveu

Chicken or Pasta

Data

17 de August, 2020

Share

Na Etiópia tem muito o que fazer, apesar de não ser conhecida como destino turístico. Da capital, Addis Ababa, até as igrejas construídas da terra em Lalibela, descubra o país com esse mini-guia.

* Texto e fotos por Walter Grião

Voltando a quase 15 anos atrás, aos meus 18 anos, me lembro de ir numa livraria na Avenida Paulista, em São Paulo, para conhecer mais do mundo além do meu. Foi quando abri um livro de história e dei de frente com a foto da Church of Saint George em Lalibela (cidade na região de Amhara, no norte da Etiópia) 

Quinze anos depois, do rooftop do hotel cercado por flores e arranjos um tanto abandonados, eu assistia o sol se pôr entre as montanhas de Lalibela

A energia e internet estavam sendo racionadas por conta de políticas locais, e eu estava então sem bateria no celular e sem poder me comunicar online. O sol foi se pondo, dando espaço à lua que ilumina o breu que percorria as ruas e os corredores do hotel vazio. Pequenos geradores de luz mantém alguma parte do hotel iluminada com uma luz amarelada e fraca, que representa bem o charme da vivência local. 

Passei horas conversando com meu guia local, um grande jovem etíope que acompanha ministros de países europeus quando estão visitando o local. E das muitas histórias que escutei, a que mais me encantou foi um conto regional romântico. 

Segundo o conto, em dias de festivais as moças vestem seus vestidos com os guardas chuvas coloridos típicos da Etiópia. É quando os rapazes apaixonados têm a chance de conquistar suas donzelas. Eles passam por elas, e jogam um pequeno limão em seus guarda-chuvas coloridos, para chamar a atenção. Após o ato, se ela se virar sorrir e se agachar para pegar o limão, ela está consentindo e o convidando para ir em sua casa e pedir a sua mão em namoro para seus pais. 

E foi assim, me recordando, me conectando às coisas simples e belas, sendo o único hóspede do hotel gigantesco, onde tive tempo de conhecer e fotografar quase a equipe toda do hotel just for fun, almoçando e jantando com funcionários, que começo minha jornada na Etiópia, a única nação africana a permanecer independente ao longo de sua história. 

Encontro de pessoas na rua em Lalibela - foto: Walter Grião
Encontro na rua em Lalibela

O que fazer em Lalibela 

De Addis Ababa a Lalibela é cerca de uma hora de voo. Do alto, com vista de montanhas arrochadas, é quase inacreditável que ali no meio do nada fica um dos lugares mais fantásticos do planeta Terra. 

Lalibela é conhecida em todo o mundo por suas igrejas, mosteiros e templos. As igrejas esculpidas na terra a partir de “rochas vivas” desempenham um papel importante na história da arquitetura por terem sido esculpidas em pedras de uma maneira singular. 

Acredita-se que a maioria seja do reinado do Rei Lalibela, durante os séculos XII e XIII, levando cerca de 20 anos para ficarem prontas. Pela importância histórica e arquitetônica, em 1978 as construções foram tombadas pela UNESCO como patrimônio da humanidade.

Domingo, seis de manhã, caminho pelo chão de terra junto com os fiéis que se vestem com suas mantas brancas até chegar à Church of Saint George. De cima de uma colina que fica ao lado da igreja, fiquei horas assistindo a peregrinação, me deslumbrado com a beleza e a devoção dos fiéis e ouvindo a oração sagrada cantada no alto falante. 

Cerimônia religiosa na Church of Saint George, em Lalibela, Etiópia - foto: Walter Grião
Cerimônia na Church of Saint George

Logo em seguida, comecei meu tour pelos lugares sagrados, passando por igrejas que estão próximas umas das outras, algumas interligadas por túneis, sendo assim desnecessário retornar até a superfície para circular entre elas. Em cada lugar tem fiéis rezando, dentro ou fora das igrejas, homens cantando músicas sagradas, acompanhadas de instrumentos como sinos de mão e tambor. 

São momentos sagrados e me vi paralisado, emocionado diversas vezes. 

O interior das igrejas conta com diversas janelas, algumas em formato de símbolos religiosos. Essas janleas são o principal vão de luz para igrejas todas esculpidas a pedra, com largas portas feitas de madeiras de tronco de árvore. 

Trajes típicos usados durante a cerimônia religiosa no monastério em Lalibela, Etiópia - foto: Walter Grião
Trajes típicos usados no monastério

Os largos e lindos tapetes estampados com tribais africanos cobrem grande parte do chão de pedra. Cortinas coloridas servem para separar o mesmo ambiente ou guardar obras preciosas e as magníficas pinturas e obras de arte religiosas das igrejas ortodoxas, e algumas católicas. 

Muitas pinturas são retratos de Cristo, Maria, santos e anjos com o tom da pele escurecido. 

Cada igreja tem seu padre ou bispo com seu traje tradicional segurando a abençoada cruz, e o altar com o livro sagrado. Tudo isto é como voltar ao tempo, um tempo em que jamais se acreditaria no boom da inclusão digital.

Mercado livre 

Imagine um campo rural, com pessoas de toda parte da Lalibela vendendo verduras, legumes, frutos secos, grãos, roupas, carnes, no chão forrado de lona ou plástico. 

Tudo é separado em “seções”, inclusive a parte pecuária, como burros que podem ser comprados ou trocados por mercadorias, e muita gente caminhando e gritando para todos os lados… é incrível, energético, fantástico!  

Mercado livre em Lalibela, Etiópia - foto: Walter Grião
Mercado livre de Lalibela

Mas o que destaco é o mel caseiro com que se faz a cachaça local, e as pequenas sementes que fazem o prato principal da culinária da Etiópia, a injera

Injera

Injera é geralmente feito de um grão chamado teff, cheio de nutrientes como proteínas, cálcio, fibras e ferro. O teff é naturalmente sem glúten, o que hoje fez com que ele seja um dos grãos tão consumidos quanto quinoa. 

O injera é feito a partir do grão fermentado misturado com água e depois frito, semelhante a uma panqueca ou crepe. 

O prato vem dentro de uma cesta de palha tamanho família com deliciosas verduras cozidas, lentilhas picantes ou grão de bico cozido, entre outros elementos veganos.

Muitas cores e sabores se misturam no prato de injera, comida típica da Etiópia - foto: Walter Grião
Muitas cores e sabores se misturam no prato de injera

A culinária da Etiópia pode-se dizer que é vegan friendly, tanto pelos seus pratos típicos, como também por questão religiosa (Igreja Ortodoxa Etíope). Todas as quartas-feiras e sextas-feiras são reservadas como “dias de jejum”, não no sentido tradicional de privação de alimentos. Na ausência de produtos de origem animal de suas dietas, muitos restaurantes oferecem opções veganas, e muitos restaurantes mundo afora estão criando pratos originais com este grão de teff baseado na culinária etíope. 

Ethiopian Coffee 

A produção de café na Etiópia é uma tradição de longa data, e só a Etiópia representa cerca de 3% do mercado mundial de café. A cerimônia do café na Etiópia é parte integrante de sua vida social e cultural. Um convite para participar de uma cerimônia do café é considerado uma marca de amizade ou respeito e é um excelente exemplo de hospitalidade etíope.  

A cerimônia é geralmente conduzida por uma jovem mulher, vestida com o traje tradicional etíope, um vestido branco com bordas de tecido colorido. O processo começa com a queima de ervas aromáticas, os grãos de café são colocados em uma panela plana, sobre um pequeno fogão a carvão, são lavados na panela aquecida, até a água evaporar. 

Os grãos são mexidos até sair toda a casca. Quando os grãos de café ficam pretos e brilhantes, a moça que conduz a cerimônia leva a panela plana até você, espalhando pelo ar o maravilhoso aroma do café. Então, o café moído é lentamente mexido no pote de barro preto conhecido localmente como jebena, e servido em pequenas xícaras de porcelanas.

O café é torrado na sua frente na Etiópia, durante a cerimônia tradicional - foto: Walter Grião
O café é torrado na sua frente na Etiópia, durante a cerimônia tradicional

A cerimônia literalmente te envolve, não só pela beleza, mas por envolver as cinco sensações:  visão, audição, paladar, tato, olfato. 

Onde se hospedar

Roha Hotel é o maior hotel em Lalibela. Tem design rústico e é decorado para retratar o ambiente histórico. Oferece um restaurante e um bar, junto ao jardim. O hotel fica perto dos lugares históricos, sendo possível caminhar até eles. Os quartos são grandes, com cama confortável e decoração africana com banheiro privado, e terraço na cobertura que te permite experimentar o pôr do sol inesquecível da região. 

O que fazer em Addis Ababa 

Assim como todas as capitais das grandes cidades de países emergentes, Addis Ababa não é diferente. Tem trânsito, infraestrutura em desenvolvimento, muitas pessoas na ruas, e uma economia que cresce rápido no continente africano. 

Mas, Addis Ababa também guarda tesouros como o The National Museum of Ethiopia, que contém muitos achados arqueológicos preciosos, como os restos fossilizados dos primeiros hominídeos, sendo a mais famosa a “Lucy”, o esqueleto parcial de um espécime de Australopithecus afarensis

O fóssil Lucy fica no Museu Nacional da Etiópia - foto: Walter Grião
O fóssil Lucy fica no Museu Nacional da Etiópia

A capital também te oferece o Addis Mercato, o mercadão. É uma bagunça, e lindo de se ver. O que mais gostei foi a área conhecida como “plástico reciclável”, um grande depósito de plástico usado que vai de garrafas até enormes caixas d’água ao ar livre, tudo muito colorido, amontoado, com homens trabalhando para reciclar todo aqueles plásticos em sandálias e chinelos, que depois serão doados ou vendidos por um preço bem popular para as comunidade da Etiópia e de outros países do continente africano. 

Hospedagem 

O Sheraton Addis tem o clássico formato de hotel, com estilo colonial, misturando requinte africano com toques modernos. Faz parte do grupo de hotéis Marriott, e fica apenas a 20 minutos do aeroporto.

O Sheraton Addis está localizado no topo de uma colina com vista deslumbrante para a cidade, oferece quartos confortáveis, com piscina, spa, com dois restaurantes de cozinha internacional e dois bares. Uma boa estadia para quem chega ou parte de Ethiopia. 

Tommoca coffees 

Talvez o mais autêntico café que já visitei, fica no centro com uma placa tímida e pequena difícil de se encontrar, conhecido por seu estilo Italian coffee, feito com grãos arábicos da Etiópia. A ambientação lembra antigas cantinas italianas e quadros contando a história da marca. Você pode comprar os diversos grãos por peso ou simplesmente degustar do então famoso café, tanto puro como ao leite. 

Existem outros lugares incríveis para se visitar na Etiópia, como Dallol, Omo Valley TribesSimien Mountains National Park

A Etiópia tem a capacidade de impressionar você dia após dia. É como em nenhum outro lugar do planeta, um mundo à parte, com mais de dois milênios de tesouros antigos espalhados pelo país com uma história, cultura e mistérios inigualáveis. Uma conexão ancestral onde seu coração fica aberto para deixar as diferenças culturais tocarem sua alma.

*Imagem de destaque: Bernard Gagnon – Creative Commons

Quem escreveu

Chicken or Pasta

Data

17 de August, 2020

Share

Chicken or Pasta

Ver todos os posts

    Adicionar comentário

    Assine nossa newsletter

    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.