Singularity Summit: os destaques do maior evento sobre tecnologias exponenciais e futurismo

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

02 de May, 2018

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A Singularity é sem dúvida a “universidade” mais hype do momento entre os entusiastas do amanhã – até o nosso quase-futuro-presidenciável Luciano Huck estava no Summit global o ano passado. Pois semana passada, nos dias 23 e 24 de Abril, aconteceu o SingularityU Brasil Summit. Foi o maior da rede já feito fora dos Estados Unidos e que, por pouco, não ultrapassou os 2 mil participantes da conferência global.

Foto Openspace

Encaro com surpresa e alegria ver o topo da pirâmide empresarial do país reunida para as discussões abordadas: a velocidade exponencial das mudanças, tecnologias emergentes, impacto positivo e – principalmente – o porquê desse próprio “topo da pirâmide empresarial” perder o sentido em um mundo horizontalizado, em rede, e menos hierárquico. A organização teve que mudar duas vezes o local para conseguir atender à demanda, e ainda assim os ingressos estavam esgotados duas semanas antes do evento.

Essa grande demanda é, sem dúvida, grande parte a marca sexy da Singularity junto com o poder do “mailing HSM”, organizadora dos principais congressos para executivos do país. Porém também acredito que é um grande indicador que a água bateu na bunda e o patrão ficou louco *(meu editor vai provavelmente mudar essa frase para “a emergência da mudança nas estruturas organizacionais tradicionais” – saco!).  Em resumo: que as empresas perceberam que precisam mudar – e rápido.

Crédito Openspace

Do lado menos positivo, não há como deixar de abordar o elitismo – com ingressos que giraram de R$3.500 a R$4.500, a Singularity e seus parceiros locais lucram com uma lógica contrária a que pregam: a da escassez. Já na entrada minha maior surpresa foi a quantidade de camisas azuis e blazers por metro quadrado: a audiência era formada por volta de 70% de homens brancos (não contei, portanto corro o risco de ser leviana). Certamente isso é muito mais um reflexo contundente da representação que temos na tomada de decisão das empresas do nosso país do que uma decisão da organização. Porém vale lembrar que muitas outras conferências incluíram estratégias de diversidade na agenda  como o Web Summit ou o próprio SXSW.

Do lado do palco a diferença já era muito menos estarrecedora, com 40% de mulheres, três palestrantes negro(a)s, e uma mulher transexual, alguns jovens e mais velhos – e a melhor notícia é que não foram palestras sobre “ser negro”, “ser transsexual” ou “ser mulher na tecnologia”. Ponto positivo para organização.

Crédio Openspace

Fui uma das privilegiadas de estar no festival, mas sei que muitos que queriam estar não tinham aquele cheque corporativo para entrar. Mas não se preocupem – fiz uma seleção de palestras disponíveis em vídeos de alguns dos melhores palestrantes. Obviamente elas foram diferentes durante o SingularityU Brazil Summit. Porém, na minha visão, elas não foram necessariamente melhores, apenas diferentes. Vendo esses vídeos você pode perder uma coisa ou outra, certamente ganhar uma coisa ou outra, e pode gastar os seus quatro mil reais tudo em bala na venda da esquina.

A visão de futuro da Singularity dá, sem dúvida, um quentinho no coração. Afinal ela é extremamente otimista. O único perigo é achar que ela é única, como diz esse texto do Tiago Mattos ou esse da Rosa Alegria. Mas como esse congresso é deles, nada como começar com o conceito de moonshot thinking, e se você não estiver familiarizado, acho legal ver um vídeo do Peter Diamandis – médico, engenheiro e co-fundador da Singularity.

Tive oportunidade de vê-lo falando ao vivo duas vezes antes e é sempre um ótimo palestrante. Dessa vez ele entrou por vídeo call, dando uma reforçadinha nos estereótipos usando uma camisa da seleção brasileira – mas comentou Brasil está em um momento perfeito para usar sua potência geográfica para transformar o mundo através do alcance exponencial da tecnologia.

Uma das minhas palestras favoritas foi da Viviane Ming sobre a inteligência aumentada humana com AI. Segundo ela, inteligências artificiais cada vez mais presentes precisam ser usadas de forma a estarmos melhores do que antes de começar a utilizá-las.  Aliás, foi bem parecida com essa aqui:

Sem dúvidas, um dos destaques do evento foi Raymond McCauley. Ele trabalha com leitura e hackeamento de DNA e falou sobre os avanços da biotecnologia,  mostrando que os avanços da biologia digital exterminaram a Lei de Moore e seu preço cai significativamente (até 5 vezes) em apenas dois anos. Talvez a notícia ainda mais animadora é que em 2022 o mapeamento de genoma será o mesmo custo da água usada para dar uma descarga hoje. E quais seriam as consequências desse baixíssimo custo? Segundo ele, o desenvolvimento de um exame de sangue simples para diagnóstico de câncer, o possível fim das mamografias e colonoscopias e até mesmo o detalhamento da composição alimentar na área da indústria dos alimentos. Ou seja, adoecer fica cada vez mais difícil e mais rápido de ser diagnosticado.


Divya Chander falou sobre neurociência e robótica. Ela lembra o quanto precisamos entender como funciona o cérebro, a consciência, o código neurológico e como conectar cérebro às máquinas de forma a trazer um impacto positivo. Ao ampliar o potencial humano, lembra ela, devemos estar aberto às mudanças necessárias para construir máquinas complexas que, além de expressar nossa consciência, nos ajude a ampliá-la. Vamos roubar no jogo vendo essa palestra aqui:

O Tiago Mattos é o único brasileiro dentro do faculty da Singularity. Ele falou sobre 4 “ideias” sobre a nova economia. Particularmente achei muito assertivo e didático como ele explicou sobre o modelo de organização pós-digital, a migração para automação e organizações em rede. Ele comentou sobre impacto positivo como premissa nas organizações: ideia que se você escuta todos os dias, a audiência não estava muito acostumada. A palestra não é igual à abaixo, mas você pode ter um gostinho.

Houve uma seção sobre brasileiros que passaram pela Singularity com projetos relacionados ao “Moonshot Thinking”. Sou particularmente muito fã da Marina Vasconcelos, fundadora da Agrosmart. A conheci na época que ela ainda passava por processo de aceleração e …. como mudou a empresa e o discurso. Pode vê-la falando nesse TED:

Tonia Cassarin é uma das brasileiras vencedoras do Global Impact Challenge e seu projeto reside em mudar a educação: ela procura estabelecer um framework para lidarmos com as emoções no qual cada letra do Método representa um verbo de ação: acolher, nomear, compreender e comunicar, organizar, regular e agir para aprender. De acordo com a educadora, esse é um passo fundamental para lidarmos com as demandas do mundo contemporâneo, onde os adultos chegam ao mercado de trabalho com aparato técnico porém completamente despreparados para lidar com os desafios emocionais que o mundo revela. Ela é também autora do Monstros na Barriga. Para inspirar, fica aqui o TED dela:

 Um dos primeiros brasileiros a ser aprovado para bolsa na Singularity University – Fábio entrou lá em 2010 – ele desenvolveu uma nanotecnologia de satélites para uma competição dentro da universidade.  A tecnologia desenvolvida por ele no Hypercubes pode mudar diversos setores da economia, mas um dos mais focados por Fábio é a produção de alimentos. O seu satélite, com dimensão inferior a da tela de um notebook, por exemplo, é capaz de olhar uma plantação do espaço e determinar o nível de fertilidade do solo, de stress, de espécies invasoras, de doenças e até dos nutrientes encontrados nas flores das plantas. O acesso a esse tipo de informação, segundo Fábio, poderia levar a produção de comida não só para um nível inteligente, mas para um nível quase artístico.

Por último vale assistir uma palestra do David Roberts – que é uma aula de como fazer palestras. Ele falou sobre o conceito de leapfrog: ou seja, quando uma tecnologia vem e salta algumas casas de adoção: por exemplo, quando as pessoas de classe mais baixa começaram a usar a internet, foi direto no telefone móvel, e não no computador. Isso pode ser aplicado e considerado nas mais variadas áreas. Rober falou do gasto com estradas quando estamos prestes a ter carros autônomos voadores e avatares para não precisamos sair de casa para trabalhar. 

Sem dúvida a Singularity University foi extremamente relevante para disseminar alguns conceitos nesse universo acelerado, volátil, incerto e ambíguo que vivemos.  Acredito que sim, ao pregar e disseminar o conceito da abundância, restringir o acesso ao conhecimento é a antítese do “walk the talk”. Certamente liberar o conteúdo live ao menos online estaria mais próximo de impactar positivamente um bilhão de pessoas, mas fica aí a dica.

*Foto Destaque: Openspace

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

02 de May, 2018

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Vanessa Mathias

Seu exacerbado entusiasmo pela cultura, fauna e flora dos mais diversos locais, renderam no currículo, além de experiências incríveis, MUITAS dicas úteis adquiridas arduamente em visitas a embaixadas, hospitais, delegacias e atendimento em companhias aéreas. Nas horas vagas, estuda e atua com pesquisa de tendências e inovação para instituições e marcas.

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Comentários

  • Parabéns Vanessa! Estive no Summit e seu resumo me fez recordar os momentos do encontro. Sua capacidade de síntese é notavel.
    - Carlos Monteiro
  • Conteúdo muito bem estruturado. Adorei! Agradeço imensamente por compartilhar Vanessa.
    - Cleide Oliveira
  • Excelente evento e resumo! Parabéns e muito obrigado por compartilhar!
    - Guilherme Fernandes
  • Maravilhoso resumo do Singularity University Summit, agradeço por ter divulgado.
    - Dante Mantovani
  • Excelente o seu resumo Vanessa, parabéns e obrigado por compartilhá-lo!
    - Ronie Melo
  • Obrigada ... por compartilhar. Li e assistirei o q ainda nao vi...em vista do valor do evento eu nao pude passar nem na porta...mas cheguei a me sentir uma tola ao pensar q o evento era caro demais...e seu texto me deixou mais confortada...nem fiquei fora do conteúdo...(já q vc compartilhou) e nem tô louca de ter achado caríssimo. Obrigada
    - Marcia
  • Melhor resumo até agora. Parabéns E adorei a “tradução” da “água bateu na bunda”
    - Rafael Durer
  • Wow! Que facilidade em demonstrar como foi o evento. De todos os relatos que li esse, sem dúvida, foi o melhor. Parabéns Vanessa Mathias!
    - Leonardo Enrique
  • Adorei Vanessa. Excelente matéria, sem falar do evento.
    - Marcos Baby

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