De repente, China

A China nos olhos de uma carioca.

Festivais de música

Os melhores festivais de música do Brasil e do mundo num só lugar.

Fit Happens

Aventura, esporte, alimentação e saúde para quem quer explorar o mundo.

Quinoa or Tofu

Restaurantes, compras, receitas, lugares, curiosidades e cursos. Tudo vegano ou vegetariano.

Roteiros 12 horas por Treviso

Explorando cidades do nascer do sol ao fim da noite.

SP24hrs

Porque para amar São Paulo não é preciso firulas.

Enoturismo na Bahia: visitando a Vinícola Terranova

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

17 de October, 2018

Share

Pensar na Bahia é trazer à mente praias paradisíacas, sol e mar. Porém, esse belo estado nordestino esconde um verdadeiro tesouro no meio de seu sertão árido: vinhedos coloridos em meio à sua caatinga. Ali, o Vale do São Francisco surpreende e não é pouco.

O Rio São Francisco é um dos cursos de água mais importantes do Brasil e da América do Sul. Ele passa por 5 estados e 521 municípios. O Velho Chico, como é conhecido, tem 2.800 quilômetros de extensão e sua nascente está situada na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Além da sua importância na produção de energia, ele é responsável também pela fruticultura irrigada nas regiões de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE).

Um pedacinho do Rio São Francisco, na Bahia. Foto: Lalai Persson
Um pedacinho do Rio São Francisco, na Bahia. Foto: Lalai Persson

O Grupo Miolo, além de sua presença forte no Rio Grande do Sul, é dona também da Vinícola Terranova, em Casa Nova, na Bahia. Eles adquiriram a Fazenda Ouro Verde, onde hoje está a Vinícola Terranova, no ano 2000. Na época, já existia uma pequena vinícola em funcionamento no local, que foi totalmente restaurada e ampliada. A construção da nova vinícola começou em 2002 e levou dez anos para ser totalmente concluída. Hoje 10% da produção é destinada ao mercado internacional.

Desde sua abertura para o público, eles recebem cerca de 2.500 visitantes por mês. São 683 hectares, área que compreenderia uma cidade de 30 mil habitantes. Desses, 200 hectares são dedicados ao plantio das uvas. É horizonte de parreiras a perder de vista.

Vinícola TerraNova do Vale de São Francisco BA / Miolo. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova do Vale de São Francisco BA / Miolo. Foto: Lalai Persson

Diferentemente da maioria dos vinhedos, a Terranova conta com até duas safras e meia de uvas por ano devido ao controle que faz do ciclo das parreiras. Ou seja, o ciclo normal que leva um ano na maior parte do mundo, ali leva apenas 4 meses. De um lado elas estão verdejantes e carregadas de uvas, do outro lado elas estão nascendo ou ainda na fase de poda. Esta é a região mais seca do Brasil. Anualmente contam com 3.100 horas de sol e apenas 400mm de chuvas anuais. O inverno nunca chega diferentemente da maioria das vinícolas ao redor do mundo (incluindo as brasileiras). O que causa tal milagre é a irrigação contínua e localizada por sistema de gotejamento do Rio São Francisco. A plantação é dedicada à uva perfeita para espumantes, vinhos jovens e frutados, e também do melhor suco de uva integral que você encontrará no mercado. Além dos espumantes e vinhos, a Miolo também produz brandy em parceria com a espanhola Osbourne, mas esse eu não experimentei.

Vinícola TerraNova: podando as parreiras. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: podando as parreiras. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova Miolo: Parreiras outonais. Foto Lalai Persson
Vinícola TerraNova Miolo: Parreiras outonais. Foto Lalai Persson
Vinícola TerraNova Miolo: Parreiras prontas pra colheita.
Vinícola TerraNova Miolo: Parreiras prontas pra colheita.

De acordo com o Adriano Miolo, enólogo do grupo, o Terranova “é um projeto mais ousado da Miolo, afinal desenvolver um projeto de vinhos vinhos e espumantes numa região tropical é um grande desafio, dado que ainda existem poucos estudos dessas regiões a nível mundial, além de serem poucas as regiões no mundo com essas características.” Além do Vale do Rio São Francisco, algumas regiões da Índia, Venezuela e da Tailândia têm também esse tipo de viticultura. Hoje se orgulham de terem apostado na região. Da Terranova sai o ótimo Moscatel Espumante e uma boa variedade Shiraz, que encontraram  seu melhor terroir no Vale do São Francisco. Mas quem ganhou meu coração ali foi Terranova Rosé de Noir Brut, o primeiro espumante elaborado com a uva Grenache.

O Brut Rosé sendo engarrafado na Vinícola TerraNova. Foto: Lalai Persson
O Brut Rosé sendo engarrafado na Vinícola TerraNova. Foto: Lalai Persson

Fizemos o passeio pela vinícola com o engenheiro agrônomo Adauto Quirino Júnior, responsável pelo processo de irrigação das plantas. Ele nos explicou de maneira didática como funciona o sistema criado para a vinícola simular as quatro estações do ano usando a água e a poda. A cada 60 dias de descanso da planta (para acumular reservas), chega o momento da poda iniciando assim um novo ciclo de produção de vinho. Com ele, visitamos diferentes parreiras, aprendemos a colher as uvas (suculentas e doces) num processo bem delicado para não machucá-las, e seguimos para um dos momentos mais esperados: ver de perto a produção e engarrafamento dos vinhos e, claro, a degustação. Depois do calorão, foi a vez de entrar numa sala congelante e lá degustar 7 tipos de vinhos/espumantes. Dois deles eram apenas bases para a produção do espumante (eu fiquei torcendo para que eles venham a produzir o Chenin Blanc, um dos meus vinhos brancos favoritos), e os demais divididos entre espumantes e vinho tinto.

Vinícola TerraNova: início da produção dos espumantes, onde a uva é macerada. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: início da produção dos espumantes, onde a uva é macerada. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: início da produção dos espumantes, onde a uva é macerada. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: início da produção dos espumantes, onde a uva é macerada. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: processo de engarrafamento do espumante. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: processo de engarrafamento do espumante. Foto: Lalai Persson

Degustamos o Terranova Brut, que é leve, tropical e festivo; o Terranova Brut Rosé, com gosto levemente adocicado e de morangos maduros; o Terranova Moscatel, perfeito para acompanhar sobremesas; e, por fim, dois Syrah que me surpreenderam, o Miolo Single Vineyard Syrah e o Testardi, meu favorito de toda essa lista. O Testardi é um vinho mais estruturado, intenso e volumoso. Não é à toa que leva este nome em italiano que, em português, significa “teimoso” e ele custa cerca de R$ 160 a garrafa. Eu nunca imaginaria tomar um vinho tinto tão bom vindo da região nordeste do Brasil.

Vinícola TerraNova: o que restou da degustação. Foto: Lalai Persson
Vinícola TerraNova: o que restou da degustação. Foto: Lalai Persson

Já virando um pouco os olhos com a quantidade de vinho degustado e o sono violento que me acometeu, foi a hora de seguirmos para visitar a Fazenda Grand Valle, que produz anualmente 5 mil toneladas de mangas. Eu não sou grande fã de manga, mas encontrei ali a minha redenção e o açúcar que eu estava precisando pra acordar. Foi a melhor manga que comi na vida.

Passeio de barco com o Vapor do Vinho

Voltamos para o ônibus e seguimos a viagem para conhecer um dos lugares mais bonitos da região, o Lago do Sobradinho, onde navegaríamos no barco Vapor do Vinho, que oferece passeios regulares com parada na Vinícola Terranova. Meia-hora nos separavam de carro da vinícola, mas eu não vi passar o caminho porque adormeci completamente.

O barco Vapor do Vinho no Lago do Sobradinho (BA). Foto: Lalai Persson
O barco Vapor do Vinho no Lago do Sobradinho (BA). Foto: Lalai Persson

O Lago de Sobradinho é um dos maiores lagos artificiais do mundo (e o maior da América do Sul). São 4.214 quilômetros quadrados de área e 320 quilômetros de extensão, ainda assim a área já sofreu secas em que o volume do lago chegou a apenas 1,11% da sua capacidade. Mas, para a nossa sorte, o lago estava com água suficiente para bons mergulhos.

O Vapor do Vinho é um barco gigante de três andares, com capacidade para 332 passageiros, com restaurante, jacuzzi, áreas para relaxar e até um tobogã que sai do último andar e leva corajosos em alta velocidade até a água. Famintos que estávamos, fomos direto para a parte que interessava, o almoço. A comida é típica nordestina e super saborosa, à base de peixes e carnes. Uma tainha gigante assada acompanhada de farofa e arroz era tudo que eu precisava, mas o purê de banana da terra fez eu me sentir abraçada. O menu ainda contava com sarapatel, escondidinho de carne seca, carne de bode, feijão tropeiro e iscas de peixe para comer à vontade. Para beber? Espumante, claro!

A embarcação navegou lago adentro até alcançar a Ilha da Fantasia, uma praia de água doce, onde finalmente eu pude me banhar nas águas do São Francisco. Diferentemente do litoral da Bahia, a água do rio é gelada na medida certa. A praia em volta, com areia fofa, é convidativa para esticar a canga e se entregar ao sol (mas requer cuidado, já que é movediça em alguns lugares, por isso não recomenda sair andando por ela sem um guia a tiracolo).

Terminamos nossa viagem brindando com espumante (claro) e assistindo a partir do convés a um dos pores-do-sol mais bonitos que vi nos últimos tempos, enquanto nosso barco ia se distanciando da água para alcançar a terra de volta.

Vapor do vinho: um brinde à viagem e ao por do sol. Foto: Lalai Persson
Vapor do vinho: um brinde à viagem e ao por do sol. Foto: Lalai Persson

O Vapor do Vinho oferece o Roteiro Enoturístico saindo de Petrolina (PE). O passeio custa R$ 160 e inclui: transfer rodoviário em Petrolina, navegação pelo Lago de Sobradinho, música ao vivo, almoço a bordo, banho na Ilha da Fantasia, visita à vinícola Terranova com direito à degustação de vinho, brandy e espumante. As saídas acontecem aos sábados e domingos às 8h da manhã e retorna às 17h30.

**

A história da vitivinicultura no sertão baiano começou ainda nos anos 1960, produzindo vinhos bases para o vermute. A história é longa, mas só agora o brasileiro começou a descobrir o enoturismo no sertão, hoje responsável por 15% da produção de vinhos nacionais. Petrolina conta até com curso de formação de tecnólogo em Viticultura e Enologia.

Onde ficar

O café da manhã do Nobile Suítes Del Rio Petrolina. Foto: Lalai Persson
O café da manhã do Nobile Suítes Del Rio Petrolina. Foto: Lalai Persson

Nós ficamos no ótimo hotel Nobile Suítes Del Rio Petrolina, que fica de frente para o rio. Os quartos são amplos, com 37m2, e arejados. Dá até para passar uns dias por lá trabalhando, pois os quartos são bem equipados com wi-fi, e TV LCD. O hotel conta também com uma ótima piscina e academia. As tarifas custam a partir de R$ 240 para quartos Superior Twin a R$ 357, o Premium com vista para o rio e cama king size.

Onde comer

A moqueca maravilhosa que comemos no Restaurante Capivara. Foto: Lalai Persson
A moqueca maravilhosa que comemos no Restaurante Capivara. Foto: Lalai Persson

Aproveitando que está em Petrolina, não deixe de conhecer o Restaurante Capivara, onde o seu Sebastião Avelino comanda a cozinha com criatividade. Ele é também dono da maior coleção de vinhos da região, com mais de mil garrafas. O nome do restaurante é uma homenagem ao Parque Nacional da Capivara, que fica a 300km de Petrolina (olha aí mais um ótimo motivo para visitar a região). Além da cozinha regional à base de peixes e carnes, o Capivara oferece também pratos à base de massas de fabricação própria, magret de pato, risotos.

Como ir

Há voos diários da Gol saindo de Guarulhos para Petrolina (PE), que fica a 50km de Casa Nova (BA). Nos voos de Petrolina para outros destinos nacionais é liberado o embarque com até 6 garrafas de 750ml ou 5 litros na bagagem de mão.

Esta viagem foi feita a convite da Miolo e da Gol, que agora são parceiras no ar em voos internacionais (mas estão se dando bem em terra também).

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

17 de October, 2018

Share

Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

Ver todos os posts

    Adicionar comentário

    Assine nossa newsletter

    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.