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24 horas na Lapa carioca

Quem escreveu

Kamille Viola

Data

26 de June, 2018

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Graças à diversidade de públicos que passam por ali, a Lapa se tornou internacionalmente conhecida por sua vida noturna. Com um passado boêmio de glória, entre os anos 1910 e 1930, quando era frequentado por artistas e intelectuais, o bairro viveu anos de decadência até passar um processo de revitalização de sua noite, a partir do fim dos anos 1990. Com isso, muitos turistas passaram a se hospedar pela região. E aí surgiu o desafio: o que fazer pelo bairro durante o dia?

Aberto no fim de 2017, o hotel Days Inn Lapa convidou jornalistas e influencers para mostrar que tem muita coisa por ali antes do sol se pôr. A experiência, batizada de #DayLapa, contou com um dia inteiro de atividades no bairro, no dia 2 de junho.

O roteiro começou com café da manhã no hotel. Ele é pago à parte da diária e custa R$ 25 por pessoa, com bufê liberado. Entre as pedidas, ovo mexido, pão de queijo, pães diversos, bolos e frutas. Na sequência, o pessoal do Rio Free Walking Tour nos levou para um passeio guiado. De segunda a sexta, eles realizam tours gratuitos (em inglês, espanhol e português) a partir das 9h30, em frente ao Teatro Municipal, na saída A do metrô Cinelândia. Mas o nosso foi personalizado, saindo do hotel, seguindo pela Avenida Mem de Sá.

Uma das primeiras paradas foi nos Arcos, símbolo do bairro. São a maior obra de engenharia do Brasil do século XVIII e, quando inaugurados, serviam como aqueduto, trazendo as águas das nascentes do Rio Carioca até o chafariz no largo homônimo. Os arcos têm cerca de 270 metros de comprimento e 18 metros de altura. A partir de 1986, a construção passou a servir de viaduto para o famoso bondinho de Santa Teresa.

Os famosos Arcos da Lapa. Ao fundo, a Catedral Metropolitana. Foto: Halley Pacheco de Oliveira/Wikipédia

Também passamos pela Sala Cecília Meireles e a Igreja Nossa Senhora da Lapa do Desterro. Ficamos sabendo que foi a primeira construção no local, a partir de 1751, e o bairro surgiu à sua volta. A igreja só tem uma torre ao invés de duas, porque templos inacabados estavam isentos de impostos. Assim, muitas igrejas ficavam eternamente “em obras”… Hoje, nenhuma delas paga.

A Sala Cecília Meireles. Foto: Kamille Viola

A parada seguinte foi a rua que leva à Escadaria Selarón. Segundo os guias Aglay Scholz e Gustavo Lehmann, o lugar é o segundo ponto turístico mais visitado na cidade, perdendo apenas para o Cristo Redentor. Como essa conta é feita, eu não sei (na hora, acabei me esquecendo de perguntar), mas o fato é que o local estava lotado de gente disputando espaço para uma foto, além de vendedores de souvenires e até caipirinha (e ainda era de manhã). A escada tem 215 degraus, 125 metros e liga a Lapa a Santa Teresa. O artista plástico chileno Jorge Selarón (1947-2013) foi o responsável pelo colorido do lugar, que começou a decorar em 1990, quando a Lapa andava em baixa, não era concorrida como hoje. Morador da rua por onde passa a escadaria, Selarón resolveu renovar o local, que estava abandonado, colando azulejos nas cores do Brasil em seus degraus. Com o tempo, adicionou o vermelho também. Aos poucos, foi ganhando ladrilhos de diversas partes do mundo, que também incorporou à sua obra. Uma coisa chata que descobrimos é que a escadaria está sendo depredada por visitantes que arrancam os caquinhos e levam para casa. Tristeza…

Dali, seguimos pela Rua do Passeio e adentramos o belíssimo Passeio Público, primeiro parque ajardinado da América Latina, concebido por Mestre Valentim e construído a partir de 1783. Até o século XIX, era um dos points da cidade — não à toa, um dos capítulos de ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis, se passa lá. É um dos meus recantos preferidos na cidade. Mas, infelizmente, passa boa parte do tempo praticamente vazio. Nos últimos anos, houve um movimento de revitalização do espaço, com realização de eventos. Pena que foram iniciativas pontuais e particulares.

Saímos em frente ao Teatro Riachuelo, antigo Cine Palácio, construção em estilo mourisco do tempo em que a Cinelândia fazia jus ao nome, ou seja, abrigava muitas salas de cinema. Ali foi exibido pela primeira vez na cidade um filme falado: ‘A melodia da Broadway’. Na Praça Floriano, conhecemos um pouco da história de alguns dos edifícios mais bonitos da cidade: o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional (a obra de restauração finalmente está quase pronta) e o Centro Cultural Justiça Federal. Aglay nos contou que a biblioteca guarda livros inusitados, como um em que Dom Pedro I teria deixado um souvenir inusitado para sua amante mais famosa, a Marquesa de Santos: seus pelos pubianos. Ou ainda um exemplar do ‘Malleus maleficarum‘, um livro do século XV que listaria práticas de feitiçaria.

A Praça Floriano, na Cinelândia, e o Teatro Municipal. Foto: Kamille Viola

Dali, seguimos pela Avenida Chile, passando pela controversa Catedral e o famoso prédio da Petrobras, e terminamos o tour na Rua do Lavradio, onde fomos conhecer a Galeria Scenarium, um casarão de três andares de 1874 que pertenceu ao Visconde de Itaboraí. Ali, vimos uma coleção de azulejos portugueses (parte do acervo do sócio Nelson Torzecki) e um pouco da história deles. O lugar pertence ao Grupo Scenarium (que inclui Rio Scenarium, Santo Scenarium e Mangue Seco, todos na Rua do Lavradio) e abriga eventos como o tour Lavradio Imperial, que inclui bate-papo com Ana Roldão, historiadora especializada em gastronomia. O espaço também possui uma capela ecumênica que recebe casamentos e conta com belos portais que foram de um casarão da família Guinle.

Janelas da Galeria Scenarium. Foto: Kamille Viola

Em seguida, fomos para o Rio Scenarium, que contava com bufê de feijoada e show do grupo Samba Social Clube (naquela tarde, eles tinham como convidado o cantor Moyseis Marques, por sinal um dos nomes revelados na cena do samba da Lapa no início dos anos 2000). Aberto em 1999 (em 2001, virou casa de shows), atrai muitos turistas, e é daqueles lugares que merecem ser visitados pelo menos uma vez na vida: fica em um lindo sobrado de três andares decorado com um belo acervo de antiguidades, que vai de lustres a rádios, passando por móveis, esculturas e outras maravilhosas quinquilharias. Aos mais empolgados com os objetos, um cartaz na parede trata de avisar: nada ali está à venda. Só nos resta mesmo apreciar.

Todo primeiro sábado do mês, das 10h às 19h, a Lavradio recebe a Feira Rio Antigo (também chamada de Feira da Lavradio). Aberta na década de 1770, foi a primeira rua residencial da cidade: nomes como Machado de Assis, Carmen Miranda, o ator João Caetano e Madame Satã moraram ali. Grande parte da arquitetura da época foi preservada, o que dá um charme especial ao lugar. A rua tem uma parte destinada somente aos pedestres (onde ficam as casas do Grupo Scenarium) e na feira fica inteira fechada para eles e as barracas de artesãos. O evento começou com antiguidades, mas hoje é possível encontrar por ali os mais diversos produtos, passando por roupas, obras de arte, objetos de decoração e móveis, entre outros. Criada em 1996 pelo Polo Novo Rio Antigo, a feira só fez crescer durante seu tempo de existência e hoje conta com mais de 400 expositores, atraindo mais de 20 mil pessoas por edição. Também acontecem shows gratuitos de música. Para quem estiver animado, vale a pena esticar até de noite, porque a Lavradio também é point noturno.

A Feira Rio Antigo ou Feira da Lavradio. Foto: Kamille Viola

Uma dica que amo: em frente ao número 172, fica a banquinha com os salgados da família Marques, citados no ‘Guia carioca de gastronomia de rua’. Atualmente custando R$ 1,50, são famosos por serem bons e baratos, e são vendidos ali de segunda a sexta das 16h à meia-noite e sábado das 11h à meia-noite. Bom pra matar aquela fome fora de hora…

Além disso, existe todo um ecossistema em torno da feira. Na Rua da Relação, no quarteirão entre a Rua do Lavradio e a do Senado, no fim da tarde, acontece um baile charme. Diversos restaurantes da Lapa abrem no primeiro sábado do mês, para pegar carona no evento. Ali pertinho, a Praça Tiradentes, outro point do Centro Antigo, recebe o Tiradentes Cultural, que acontece das 14h às 20h e reúne comida, música e oficinas.

Da feira, seguimos para o hotel para um descanso. Já eram quase 18h. Só então subimos para ver o quarto. O Days Inn é a linha low cost do grupo hoteleiro Wyndham e abriu duas filiais no país, no Rio e no Espírito Santo. A aposta é no custo-benefício: a diária em quarto de casal nesta época do ano custa R$ 105 (com café da manhã à parte) no Days Inn Lapa, um preço bastante atrativo em termos de Rio de Janeiro. Os quartos são simples, mas confortáveis, com frigobar, TV a cabo e uma ótima ducha. Durante minha estada, foi bastante silencioso. O acesso ao Sambódromo, os Arcos da Lapa e o Aeroporto Santos Dumont (neste caso, de Uber ou táxi) é rápido, sendo uma boa pedida, por exemplo, para quem quiser fazer um bate e volta para assistir a algum show — por exemplo, o Queremos! Festival que acontece em agosto na Marina da Glória.

Os quartos. Foto: divulgação Days Inn

Às 21h, descemos para provar uma novidade no menu do hotel: o hambúrguer artesanal da casa. O chef Leo Oliveira assumiu a cozinha do lugar recentemente e vem reformulando o cardápio. O próximo passo, ele nos contou, é passar a produzir os pães no próprio hotel. Alguns integrantes da nossa turma já começaram na cervejinha, para ficar no clima de nossa parada seguinte: o Circo Voador, minha casa de shows preferida da cidade. Naquela noite, seria um encontro de clássicos: o Circo receberia o show de Jorge Ben Jor, que anualmente bate ponto na lona da Lapa. Entramos pouco depois das 23h e foi o timing perfeito, porque logo em seguida o lugar começou a encher.

Pausa para dizer que o Circo Voador é minha casa de shows preferida da vida. Além de ter uma programação que sempre acaba me atraindo, o lugar tem uma vibe que só quem já foi vai entender. O bar, além de cerveja, tem opções como gim tônica (que acaba sendo minha pedida em geral, mas atenção: ela é forte, então, se você não quiser uma bebida com tanto gosto de álcool, peça um copo extra e ‘tempere’ seu drinque com mais água tônica, #ficaadica) e ótimas comidinhas, entre elas o hambúrguer artesanal da casa (são duas opções de sanduíche) e a batata frita.

Também sou suspeita, porque Jorge Ben é um dos meus artistas do coração, mas a noite foi muito animada para todos. Depois de três horas de hits, voltamos para o hotel. Que dia! Uma ducha, uma noite bem dormida, café da manhã outra vez e fim da aventura.

Jorge Ben Jor no Circo. Foto: Kamille Viola

* Foto do destaque: Escadaria Selarón por Adelano Lázaro/Wikipédia

Quem escreveu

Kamille Viola

Data

26 de June, 2018

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Kamille Viola

Kamille Viola é jornalista cultural, apaixonada por música, comida e viagens. Adora mostrar cantos menos conhecidos do Rio para quem vem de fora - e quem é da cidade também. É daquele tipo de gente para quem escrever não é uma escolha: é a única opção.

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Comentários

  • Além de suas belezas o que mais me encanta nessa cidade são suas histórias... orgulho de poder fazer parte.
    - Joana Pogian
  • Que belo passeio pelo Centro Historico do Rio, berço da Cultura, da Arte e da Gastonimia desta Cdade, apesar de tudo, MARAVILHOSA!
    - Plinio Froes
    • opa, que ótimo que curtiu!
      - Lalai Persson
      • Comentário teste
        - Ola

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