Arte & Cultura

2017 é o ano das artes na Alemanha

Quem escreveu

Renato Salles

Data

21 de July, 2017

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O mundo das artes está em polvorosa, mas dessa vez não é com a Bienal de Veneza e a Art Basel, que estão em pleno curso. 2017 é um ano bem importante para o meio por conta de dois eventos que movimentos cidadezinhas do interior da Alemanha. Estão rolando ao mesmo tempo a documenta 14, em Kassel, e o Skulptur Projekte em Münster. A primeira acontece só a cada 5 anos, e a segunda apenas de 10 em 10! Portanto, o fato das quatro mostras acontecerem ao mesmo tempo é um evento raríssimo, o que já é motivo suficiente para amantes de arte darem um jeito de correr para o Velho Continente.

O museu Fridericianum é o espaço principal da documenta, em Kassel, Alemanha - foto: Mathias Völzke
O museu Fridericianum é o espaço principal da documenta, em Kassel, Alemanha – foto: Mathias Völzke

documenta

Em 1955, ainda tentando se levantar de uma guerra devastadora, a Alemanha incentivava todo tipo de programa que pudesse levantar a moral da população e movimentar a economia. Naquele ano, aconteceu o Bundesgartenschau (algo como Festival Nacional de Jardinagem), e o professor e curador Arnold Bode aproveitou para montar um evento secundário, focado em arte. O governo nazista tinha proibido, durante seus anos de poder, todos os movimentos artísticos modernos dos anos 10 em diante, por serem considerados subversivos. E foi nesses movimentos que Bode focou sua exibição: fauvistas, cubistas, futuristas e outros. Estavam lá nomes como Picasso e Kandisnky. Foi um sucesso tão grande, que a primeira documenta arrastou mais de 130 mil pessoas para o evento.

Com o tempo, a documenta mudou a curadoria para a arte contemporânea, e abrangeu artistas dos quatro cantos do mundo. Além disso, a mostra passou a reunir o que havia de mais arrojado e contestador em termos de arte. A pop art, arte minimalista, arte cinética, arte conceitual, e até apresentação do design com status de arte tiveram seus momentos nos 62 anos de história da exposição. Os últimos anos foram marcados por temas calcados na discussão política, envolvendo imigração, urbanização, globalização e a era pós-colonial, feminismo, e muitos outros.

A obra 'The Parthenon of Books', da Martha_Minujín, é uma das maiores atrações da documenta14 - foto: Roman Maerz
A obra ‘The Parthenon of Books’, da Martha Minujín, é uma das maiores atrações da documenta14 – foto: Roman März

Os artistas selecionados para participar de cada documenta tem, geralmente, dois anos para conceber e produzir suas obras. Além disso, as obras – e algumas vezes, o nome dos próprios artistas – são mantidas em segredo, e só são divulgadas para a imprensa no dia da abertura. Acontece que a maioria das peças são site-specific, ou seja, são feitas sob medida para o ponto onde estão, e não são transportadas depois para serem exibidas em outros lugares. Por isso a documenta é considerada um museu efêmero, que dura apenas 100 dias. Algumas poucas obras de edições passadas foram compradas por museus de Kassel, e ficam em exibição permanente.

O trabalho provocativo da artista Ida Applebroog na documenta 13 - foto: Fabian Fröhlich
O trabalho provocativo da artista Ida Applebroog na documenta 13 – foto: Fabian Fröhlich

A documenta 14 é, pela primeira vez, uma edição dupla, pois tem a primeira metade acontecendo ao mesmo tempo em Atenas. Isso por conta do tema que está sendo trabalhado: ‘Learning from Athens’. A capital grega foi escolhida como o ponto central da discussão artística por ser, por um lado, o berço da democracia, da filosofia, e da própria civilização ocidental, e por outro, por estar hoje no epicentro do colapso da própria civilização que criou. Afinal de contas, a Grécia passa por um período econômico delicado depois da crise econômica que eclodiu em 2015, a população do país entrou em embate com um órgão internacional do tamanho do FMI, e ainda é porta de entrada para a monstruosa crise dos refugiados do Oriente Médio na Europa. Assunto não falta.

A documenta de 1992 atingiu meio milhão de visitantes. Em 2012, ela chegou à marca de 904 mil pessoas. 2017 deve ser o ano em que a mostra crave seu primeiro milhão de pessoas em uma única edição. A exposição em Atenas foi de 8 de abril até o último dia 16 de julho, mas em Kassel ela segue até o dia 17 de setembro. A visitação acontece todos os dias, das 10h às 20h.

Pavilhão de informações do Skulptur Projekte Münster em 2007 - foto: Modulorbeat
Pavilhão de informações do Skulptur Projekte Münster em 2007 – foto: Modulorbeat

Skulptur Projekte

Ainda mais raro, o Skulptur Projekte é uma decenal, ou seja, acontece só de 10 em 10 anos, o que faz de 2017 um ano bem especial. A pequena Münster, que em geral é apenas uma cidade interiorana universitária, vira um ponto de romaria de amantes de arte do mundo inteiro.

A ideia principal do evento é espalhar pela cidade toda grandes esculturas, que ocupem e transformem o espaço público. E esse movimento começou de forma despretensiosa, orgânica e empírica. No meio dos anos 70, o artista George Rickey instalou em uma praça uma de suas obras, ‘Drei rotierende Quadrate’ (Três Quadrados Rotativos), e causou uma comoção por parte da população, que foi contra a instalação no espaço público. Para tentar acalmar os ânimos e tentar mediar a situação, o então diretor do Westfälisches Landesmuseum Klaus Bussmann organizou uma série de apresentações e palestras com intuito de aproximar o público do trabalho artístico.

A escultura de George Rickey, que fez o Skulptur Projekte acontecer. - foto:  Rüdiger Wölk
A escultura de George Rickey, que fez o Skulptur Projekte acontecer. – foto: Rüdiger Wölk

Era 1977, e como uma extensão do programa de Bussmann que surgiu o evento. Ele se juntou a Kasper König, curador do Museu Ludwig em Colônia, e juntos fundaram o Skulptur Projekte. Claro que a primeira edição foi super polêmica, e houve muito protesto na cidade. Mas com o tempo, os cidadãos de Münster acabaram abraçando a causa, e hoje recebem os visitantes com orgulho (e se aproveitando de toda movimentação econômica, claro).

O comitê de curadoria, que muda a cada edição, escolhe os artistas participantes de cada edição com a intenção de enaltecer os melhores exemplos de trabalhos escultóricos do todo o mundo. Cada artista selecionado, então, escolhe um local da cidade e cria a partir do espaço existente. De edições passadas, 35 obras foram compradas pela cidade, e se mantiveram após o fim da exposição.

A obra 'On Water', da artista turca Ayse Erkmen, é uma ponte submersa no meio da cidade de Münster - foto: Roman Mensing
A obra ‘On Water’, da artista turca Ayse Erkmen, é uma ponte submersa no meio da cidade de Münster – foto: Roman Mensing

Os 100 dias de duração são escolhidos para coincidir em grande parte com a documenta, e assim atrair mais turistas da arte. A mostra não tem tema específico, pois a grande questão que eles buscam é a interação da arte com o público e o espaço da cidade. A história de confronto da população com novas ideias se provou uma boa fórmula para buscar o diálogo e o progresso. O Skulptur Projekte se tornou uma força de ativação histórica, arquitetônica, social, política e estética. E o melhor de tudo: é completamente gratuita. A exposição vai até 1 de outubro.


O Chicken Or Pasta já está de malas prontas para a Alemanha, para conferir de perto as duas exposições. Depois a gente conta tudo de cada uma em detalhes. Antes disso, você pode acompanhar nossa experiência pelo nosso Instagram.

*Foto do destaque: Roman März

 

Quem escreveu

Renato Salles

Data

21 de July, 2017

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