Arte & Cultura

Documenta 14: a arte de aprender a ver arte

Quem escreveu

Renato Salles

Data

12 de September, 2017

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Lorenza Böttner, nascida Ernst Lorenz Böttner, é uma artista chilena de ascendência alemã, que perdeu os dois braços depois de receber um choque elétrico. Depois de recusar o rótulo de ‘deficiente’ e o uso de braços prostéticos, ela se dedicou ao balé clássico, ao jazz, ao sapateado, e aprendeu a pintar com a boca e os pés. Seus trabalhos incluem pinturas-performances com temas de forte teor político, design de roupas sem mangas, e séries de fotografias registrando o processo de transição de gênero. Sua obra era uma eterna batalha contra a opressão da sociedade contra o indivíduo ‘anormal’. Com a arte, ela evocava o direito à capacitação, subjetificação e sexualidade de seu corpo transgênero sem braços. O trabalho de Lorenza Böttner foi, com certeza, um dos mais impactantes da Documenta 14, que acaba no próximo dia 17.

Auto-retrato de Lorenza Böttner, pintado com os pés.
Auto-retrato de Lorenza Böttner, pintado com os pés.

Eu contei um pouco da história da Documenta aqui. Resumidamente, a Documenta é um dos maiores e mais importantes eventos de arte contemporânea do mundo, que acontece a cada 5 anos na pequena Kassel, no interior da Alemanha. Ali, por 100 dias, o trabalho de centenas de artistas de vários países é reunido em diversos espaços para apresentar um panorama da arte mundial, e coletar diversos pontos de vista a cerca de um ou mais temas centrais de relevância global.

Visitar a Documenta não é uma tarefa fácil. Principiantes como eu podem penar para entender algo de muitas obras, porque ali a arte é tratada com absoluta liberdade dentro de todas as possibilidades e meios possíveis. E tudo, sem excessão, é carregado de conceito e simbolismo, mesmo que muita coisa não seja acessível ao público médio. A pergunta que assombra boa parte das obras é: ‘Mas isso é arte?’ Sim, tem muita coisa estranha, bizarra, desagradável e às vezes repugnante. Mas ver tanta coisa, e tanta gente, envolvida em um evento dessa proporção é uma escola. Entender arte vira um treino constante. Apenas vê-la ou apreciá-la não é suficiente.

'The Prestige of Terror' - Adam Broomberg e Oliver Chanarin
‘The Prestige of Terror’ – Adam Broomberg e Oliver Chanarin

Essa experiência de Kassel oferece um contraste abismal com os recentes acontecimentos em uma exposição cancelada prematuramente em Porto Alegre. Aqui no Brasil, um movimento político usa motivos torpes e o discurso de ódio para colocar a população contra o poder transformador da arte. Não existe a busca pela conceituação da manifestação artística, e por consequência, não existe debate. Na Documenta, a arte está a serviço da total liberdade de expressão, mesmo tratando dos mais espinhudos assuntos. Todas as vozes são ouvidas, e a censura não passa nem na porta.

Um bom exemplo é a principal (e mais instagramada) obra de todo o evento. O ‘Parthenon of Books’, da argentina Marta Minujín, ocupa toda a praça central de Kassel, bem em frente aos principais prédios que abrigam a Documenta. Impossível não passar por ele. A obra foi feita originalmente em 1983 em Buenos Aires, logo após o fim do regime militar do país. Uma réplica do Parthenon de Atenas foi construída com mais de 100 mil livros proibidos ou censurados pelo governo, simbolizando a estética e os ideais políticos da primeira democracia do mundo. Em Kassel, o Parthenon foi reconstruído exatamente onde os nazistas queimavam os livros censurados até a queda de Hitler. Se nos anos 80 a artista dava um grito de libertação, hoje sua instalação suplica a que não esqueçamos os erros do passado em nome de uma sociedade mais justa, igualitária e empática.

Parthenon of Books - Marta Minujín
Parthenon of Books – Marta Minujín

Não por coincidência, o tema da Documenta 14 era ‘Aprendendo com Atenas’. A capital grega surge como peça-chave no entendimento do mundo atual por ter sido berço de princípios determinantes da nossa sociedade como a democracia e a filosofia, e também por hoje  ser palco de algumas dos maiores conflitos globais como o colapso financeiro do bloco europeu e a crise dos refugiados.

O artista curdo Hiwa K., por exemplo, empilhou tubos de concreto usados em sistemas de esgoto e os decorou como cômodos de uma casa. Sua inspiração é sua própria experiência ao fugir no norte do Iraque a pé nos anos 90, sem dinheiro para pagar por qualquer tipo de abrigo. Entender sua história muda completamente o envolvimento que se tem com a instalação.

Hiwa K. e seus dutos de esgotos transformados em lar
Hiwa K. e seus dutos de esgotos transformados em lar

Já o artista e compositor mexicano Guillermo Galindo usou o imenso pé direito do Documenta Halle para fazer flutuar enormes destroços de barcos retirados de naufrágios na ilha de Lesbos, na Grécia, transformando-os em instrumentos musicais que foram realmente tocados em performances durante o evento. Guiado pela ideia das civilizações meso-americanas de que instrumentos são talismãs para o trânsito entre mundos, ele oferece uma parte de sua cultura como meio de redenção para os milhares de refugiados mortos no Mediterrâneo.

Instrumentos-barco de Guillermo Galindo
Instrumentos-barco de Guillermo Galindo

Algumas obras causam confusão. O Friedericianum – um dos primeiros museus públicos do mundo, e um dos principais prédios a abrigar a Documenta – recebeu em sua torre do romeno Daniel Knorr uma máquina de fumaça. Na teoria, a obra ‘Movimento de Expiração’ simboliza a fumaça como meio de comunicação. Na prática, um monte de gente ligou para a polícia para avisar que havia um incêndio. A interação dos visitantes com algumas obras ficou tão complexa, que a polícia teve que ser instruída sobre elas para poderem passar a informação a diante.

Daniel Knorr na documenta 14
Eu vejo a fumaça do Papa na obra do Daniel Knorr

Mas o mais interessante é que muitas obras na Documenta oferecem esses insights ao lado das obras, o que torna a vivência delas muito mais rica. Um caso que me intrigou muito foi de duas obras vizinhas, com poucas explicações. De um lado da parede, um óleo sobre tela primoroso de Dimitris Tzamouranis mostrava as ondas de um mar revoltoso. Bela técnica, bela imagem, e só. A sua volta, várias pessoas se espremiam para olhar mais de perto as pinceladas, ou para tirar uma foto com celular. Do outro lado, uma elaborada instalação de Janine Antoni que misturava a Odisséia de Ulisses, uma máquina de encefalograma e um detalhado trabalho de bordado capturava apenas alguns poucos curiosos. O impacto imagético se sobrepõe ao conceitual, mesmo na Alemanha.

O mar de Dimitri Tzamouranis
O mar de Dimitri Tzamouranis
Janine Antoni. Foto: Renato Salles

Aquela cena é um retrato da experiência de arte que esvaziou o discurso da mostra ‘Queermuseu‘, e acabou por ceifá-la. O entendimento da arte – de novo, mais que a apreciação – depende de se abrir para o que o artista se propõe, e não só nos limitarmos à nossa resposta emocional a ela. Talvez a Documenta, com seus textos explicativos ao lado de cada obra, e seus policiais-monitores, seja um caminho para ampliar os horizontes do público brasileiro.

A obra da turca Banu Cennetoglu, “Being safe is scary”, é um tributo ao jornalista curdo e pacifista Gurbetelli Ersöz

Num país onde se mata uma pessoa a cada 25 horas por homofobia, a arte poderia ser uma interface de diálogo, um campo de tréguas onde podemos celebrar as diferenças. Fico pensando como seria recebido o trabalho da Lorenza Böttner, com suas deformidades, seu não-conformismo e seu erotismo exagerado. Se na Alemanha ela foi celebrada, mesmo que postumamente, penso que no Brasil ela poderia ser infelizmente calada, castrada e relegada aos porões da sociedade. Só porque não tivemos a oportunidade entendê-la.

*Foto do destaque: Estação Central de Kassel – Renato Salles

Quem escreveu

Renato Salles

Data

12 de September, 2017

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