Arte & Cultura

A arte na mira da agenda política – ataques a exposições se espalham pelo mundo

Quem escreveu

Renato Salles

Data

23 de October, 2017

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O caso já tem algumas semanas e não é novidade para ninguém. O Santander Cultural, em Porto Alegre, cancelou a exposição ‘Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira‘ antes do tempo, cedendo à pressão de grupos de militância conservadora. Os trabalhos de artistas consagrados como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Portinari acabaram censurados junto com as obras contestadoras da Adriana Varejão e da Bia Leite, acusadas de fazerem apologia à pedofilia e à zoofilia. O barulho na mídia, dos dois lados, foi grande. E quem saiu mal mesmo na história foi o próprio Santander.

Logo em seguida, a performance ‘La Bête’, no MAM de São Paulo, tacou ainda mais gasolina na fogueira, acabando com qualquer possibilidade de diálogo, quando uma menina acompanhada de sua mãe interagiu com o artista Wagner Schwartz nu. Os desdobramentos dessa polêmica toda ecoaram rapidamente pelo país, e continuam avançando como um tsunami conservador contra a liberdade artística.  Casos bizarros pipocaram em outros estados, chegando até a universidades, aos palcos,  às instituições mais respeitadas do Brasil. A situação está tão dramática que temos até presidenciáveis apoiando publicamente o fuzilamento de artistas e curadores. É perturbador pensar que em pleno século 21 vivemos situações parecidas com as vividas pelos alemães em pleno regime nazista, 80 anos atrás.

A tela ‘O Jardim das Delícias Terrenas’, de Hieronymus Bosch (1515) está no Museu do Prado desde 1939 sem causar qualquer polêmica.

Mas quem acha que essa histeria coletiva em torno dos limites da arte são exclusividade brasileira, está muito enganado. A guinada à extrema direita já mostrou a força política que tem em países como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Áustria, e agora o radicalismo conservador parece estar se espalhando também nos museus e instituições culturais do mundo como fogo em palha seca.

O embate entre artistas e público que protesta não é nenhuma novidade nos Estados Unidos. Em Nova York, em 1999, o prefeito de Nova York Rudolph Giuliani ameaçou fechar e tomar o controle do Brooklyn Museum of Art por conta de uma obra que mostrava a Virgem Maria pintada com estrume de elefante. Dez anos antes, uma exposição do fotógrafo recém-falecido Robert Mapplethorpe foi cancelada pela Corcoran Gallery of Art em Washington por pressão de congressistas conservadores por conta do teor sexual. O fato causou revolta, e fãs do artista responderam projetando as imagens do próprio Mapplethorpe nas paredes da Corcoran Gallery.

Pois foi em Nova York que todo o bafafá em torno do Queermuseu acabou de forma similar. A Cibele Vieira, uma das artistas com obras na exposição, se engajou em um financiamento coletivo para reagir à censura projetando imagens e frases como “Brasil, o mundo está assistindo”, “Ditadura nunca mais” e “Nova York ama Queermuseu” nos muros do bairro de Bushwick, e nas paredes do New Museum of Contemporary Art e do Whitney Museum. Mas essa não é a única polêmica pipocando por lá atualmente.

Projeções das obras da mostra Queermuseu na fachada do Whitney

No mês passado, o Guggenheim decidiu vetar 3 obras que fariam parte da exposição ‘Art and China After 1989: Theater of the World’, por pressão de ativistas dos direitos dos animais. Duas das obras eram videos com pitbulls e porcos, criados entre 1993 e 2003. A terceira, a instalação que dá o nome à exposição, continha centenas de grilos, lagartos, besouros, cobras e outros insetos e répteis vivos. O museu anunciou a decisão alegando questões de segurança de funcionários e visitantes. Em Minneapolis, a obra ‘Scafold’, do californiano Sam Durant, despertou a ira da comunidade indígena, por evocar o cenário de 7 execuções, incluindo o enforcamento de 38 índios Dakota na guerra de 1862. A obra, que fazia parte do acervo permanente do jardim de esculturas do Walker Art Center, acabou desmontada, e a madeira será enterrada em local desconhecido a pedido dos índios.

A obra ‘Scafold’, de Sam Durant, com os cartazes de protesto. – foto: Evan Frost | MPR News

E o Whitney Museum também enfrentou muita controvérsia na Bienal de 2017, com a pintura ‘Open Casket’, da americana Dana Schutz. A obra recria a imagem do funeral do adolescente negro Emmett Till, que foi brutalmente assassinado a pancadas em 1955 depois de supostamente assobiar para uma mulher branca. Na época, a mãe de Till quis que seu caixão permanecesse aberto durante o velório para denunciar a violência sofrida pelo filho, e o episódio foi um dos catalisadores do movimento dos direitos civis americano. Em 2009, o corpo do menino foi exumado, e a família doou o caixão para o Smithsonian’s national Museum of African American History and Culture, em Washington, que o pôs em exibição permanente. A questão toda envolvendo a obra da Bienal é que a autora é branca, e organizações que lutam pelos direitos dos negros a acusam de se apropriar da causa para enriquecer e ganhar fama. Eles pedem que o quadro seja não só retirado de qualquer mostra, como destruído.

Ativistas chegaram a bloquear a visão do quadro ‘Open Casket’ por um dia inteiro

A França também não escapou da contenda. O Louvre, o museu mais visitado do mundo, entrou na discussão depois que o presidente do museu Jean-Luc Martinez se negou a receber a escultura ‘Domestikator’, do artista holandês Joep van Lieshout na Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC), no Jardim de Tuileries. A obra geométrica tem 12m de altura, e mostra uma figura humana penetrando por trás uma outra de quatro patas, e já tinha ficado exposta na Alemanha por 3 anos sem qualquer problema. Segundo a instituição, eles perceberam através de postagens em redes sociais que a obra daria “uma percepção errônea desse trabalho, que pode ser brutal demais para o público tradicional do Jardim de Tuileries”. O tumulto nem tinha aquecido ainda, e o Centre Pompidou se adiantou para receber a grande escultura, agora exposta na praça na frente do museu, com boa aceitação.

Joep van Lieshout e sua obra ‘Domestikator’ em frente ao Centre Pompidou

Em Paris ainda, o Musée d’Orsay e l’Orangerie resolveram retomar uma campanha de 2015, composta por 9 cartazes, sendo que um deles diz: ‘Traga seus filhos para ver gente pelada‘. O cartaz traz ainda a imagem da pintura ‘Mulher Nua Deitada’, pintada por Auguste Renoir em 1907. De acordo com a diretora de comunicação dos museus, Amélie Hardivillier, a ideia da campanha era criar uma inversão de papeis, colocando as crianças como protagonistas nas visitas dos museus. Os dois museus possuem várias obras com nudez explícita, mas nenhum deles tem qualquer tipo de restrição de idade.

Gustave Courbet – L’Origine du monde (1866), do acervo do Musée d’Orsay

Esse mesmo jogo está sendo jogado agora em São Paulo. O MASP, maior e mais importante museu da América Latina, abriu na semana passada a exposição ‘Histórias da Sexualidade‘, com segurança reforçada. Essa mostra vem se somar a todo um trabalho de curadoria da instituição, que vem trabalhando a sexualidade como tema central desde o começo do ano. Essa, entretanto, já virou palco de discórdia antes mesmo de abrir, porque o próprio museu resolveu instituir uma censura a menores de 18 anos. É a primeira vez que o MASP coloca qualquer restrição de idade desde sua fundação há 70 anos. No dia a abertura, uma grande manifestação tomou conta do vão livre em prol da liberdade de acesso, com participação até do artista e ativista chinês Ai Weiwei. O MASP se defende usando a legislação brasileira.  Em resposta, a Pinacoteca de São Paulo lançou uma campanha em defesa da liberdade da expressão artística que diz ‘Não tem certo. Não tem errado. Tem arte.’ A marca de vodka sueca Absolut também lançou uma campanha em que resgata seus mais de 40 anos de trabalhos feitos com artistas do mundo todo, com o mote ‘Quando a arte resiste, o mundo progride.‘ O backlash foi incontrolável.

A arte retrata a nudez desde o início da civilização, seja nas esculturas da Grécia Antiga, ou no hiper-sexualizado Kama Sutra indiano. Mesmo durante as épocas mais obscurantistas da Idade Média a nudez aparecia na arte otomana. E desde o Renascimento, o corpo humano é retratado com toda a naturalidade que merece, mesmo em imagens sacras, sem causar qualquer tipo de reação. Em muitas culturas, inclusive, nudez e sexualidade são questões de âmbitos completamente diferentes. Esse levante conservador atual não se sustenta, portanto, baseado em proteção das crianças ou da dignidade. No Brasil, ainda mais, culpar a arte pela exposição das crianças a conteúdo de teor sexual é absoluta hipocrisia, considerando a cultura do Carnaval, do funk e mesmo dos programas de auditório da família tradicional.

Foto do americano Spencer Tunick no Parque Ibirapuera em 2002, com 600 voluntários. Ela faz parte da série ‘Nude Adrift’, que rodou o mundo.

O que se pode atestar é que essa mobilização social para se condenar a arte só pode ter um caráter de ativismo político. Junto com a nudez, estão sendo arrastados outros assuntos de interesse da agenda política conservadora, como racismo, identidade de gênero, religião, etc. No mundo todo, estamos assistindo uma polarização exagerada – e muitas vezes doentia – em torno de causas políticas que estão dividindo a humanidade, cerceando o diálogo, e destruindo a convivência. A arte tem justamente o papel de abrir espaço para que essas pautas sejam propostas e discutidas. A condenação da arte só ajuda a levantar ainda mais muros e semear o ódio. Mas por mais que o mundo pareça caminhar cada dia mais para uma distopia cinematográfica, a arte seguirá resistindo.

OBS: Para aprofundar a discussão a respeito dos limites do fazer artístico, recomendo fortemente o texto do Rodrigo Cássio Oliveira.

*Foto do destaque: Ai Weiwei – Study of Perspective, Trump Tower, NY (2017)

Quem escreveu

Renato Salles

Data

23 de October, 2017

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